quinta-feira, 22 de abril de 2010

Reforce o valor de sua marca

Profissionais de Marketing que estudam os mercados asiáticos concluíram que a recessão no continente já está praticamente encerrada. Porém, não se pode dizer o mesmo da Europa e América do Norte. Os lucros das empresas que compõem o S&P 500 despencaram a níveis não vistos desde a Segunda Guerra Mundial e a taxa de desemprego nos EUA é a mais elevada dos últimos 15 anos.

Claro, não é só desgraça e pessimismo para todas as empresas. Varejistas, como o Wal-Mart, fazem parte de um segmento que tem tido bom desempenho nos últimos 18 meses. Na verdade, a crise provocou uma alteração na demografia dos clientes destas lojas. Antes, a maioria pertencia a um grupo de renda baixa ou média; hoje, estabelecimentos como a Wal-Mart, ALDI e Lidl estão atraindo cada vez mais consumidores de alta renda.

É uma dinâmica interessante, principalmente quando consideramos os últimos resultados das pesquisas da American Customer Satisfaction Index (ACSI – Índice Americano de Satisfação do Consumidor). Nos 15 anos em que se vem medindo os índices, nunca se viu consumidores tão satisfeitos como hoje!

Assim, pessoas que sofreram contratempos econômicos remanejaram alguns de seus gastos, deixando de consumir marcas conceituadas, passando a comprar marcas populares e, apesar de tudo, estão muito felizes. Está mais do que claro que não são consumidores que estão apenas se adaptando à turbulência a contragosto e ansiosos para retomar seus hábitos de consumo pós-crise.

Então, o que isso significa para as marcas conceituadas na medida em que as grandes economias saem da crise? Os resultados de um projeto de pesquisa do IMD sobre "o que determina a valorização da marca pelos consumidores?" esclarece um pouco esta questão.

Junto à pesquisa, há um estudo europeu de consumo em que, por meio de um sofisticado instrumento de pesquisa de mercado, foi medido o valor que os consumidores atribuem às suas marcas preferidas em uma série de categorias de consumo popular.

A fim de obter respostas à pergunta "o que determina a valorização da marca?" também indagamos aos entrevistados sobre seus estilos e hábitos de compra, bem como suas atitudes em relação a compras, para então segmentá-los.

Identificamos três pares de segmentos importantes. Há consumidores que são habituais em suas compras versus aqueles que estão abertos a experimentar algo diferente. Há consumidores com consciência de qualidade, isto é, aqueles que se esforçam para adquirir o melhor, contra aqueles que se contentam com o ‘bom o suficiente’. E, por fim, há consumidores que percebem uma considerável diferença entre as marcas em uma determinada categoria de produto contra aqueles que não percebem.

Sendo assim, exploramos como esses diferentes segmentos valorizam as marcas, o que resultou em insights reveladores.

Insights
Nossa primeira revelação não foi surpreendente, mas informativa. Consumidores habituais valorizam as marcas significativamente mais do que consumidores experimentais. Ou seja, para uma parcela importante da população, as marcas são um mecanismo conveniente para justificar compras habituais. Fundamentalmente, isto é favorável às marcas estabelecidas, mas pode facilmente se tornar um contratempo se os consumidores, devido às situações financeiras pessoais, forem forçados a escolher uma marca mais barata.

Uma vez que os consumidores se familiarizam com tal marca barata, a mesma passará a ser tão eficaz no suporte aos compradores habituais quanto à marca mais cara. Assim, há pouco incentivo para os consumidores habituais voltarem à marca original quando a situação econômica for amenizada.

Nossa segunda revelação foi muito chocante. Em geral, marcas fortes indicam qualidade. No entanto, descobrimos que os consumidores que dão grande valor à qualidade, não valorizaram suas marcas preferidas mais que os consumidores que estão satisfeitos com o "bom o suficiente".

Assim, marcas de bens de consumo não servem como base de qualidade. Consumidores que abandonaram as marcas conceituadas por razões econômicas muito provavelmente não terão motivo para voltar a estas marcas simplesmente por serem "sinônimos de qualidade". Elas não representam qualidade na mente dos consumidores.

Nosso último insight ressalta a importância da diferenciação. Consumidores que percebem a existência de uma diferença entre marcas também valorizam suas marcas preferidas mais do que consumidores que percebem pouca diferença entre elas.

Essa talvez não seja uma descoberta muito surpreendente, mas oferece uma orientação tangível para gerentes de marca; reforça o velho mantra "Diferencie! Diferencie! Diferencie!"

Implicações
Nossa pesquisa sugere, que, ao sairmos da crise, a esperança de que tudo voltará automaticamente ao seu devido lugar pré-crise são descabidas. Torna-se imperativo se diferenciar e os profissionais de marketing precisam ser pró-ativos na busca deste objetivo para o qual há dois elementos críticos. O primeiro é criar um ponto de diferenciação; o segundo é comunicar tal ponto de diferenciação.

A criação de pontos concretos de diferenciação quase sempre exige inovação que, por sua vez, requer verba de P&D. Mas apenas a inovação tecnológica não é suficiente. As empresas também precisam se organizar para poderem inovar o mercado tecnologicamente. Como geralmente isso é um empreendimento exigente e dispendioso, empresas em tempos de crise tendem a deixá-lo de lado. Porém, já não podem mais se dar esse luxo.

Comunicar um ponto de diferenciação exige verba de comunicação e, devido às grandes mudanças ocorrendo nesses meios, estas verbas deverão ser alocadas para tal. Gestores de empresas que reduziram seus orçamentos para comunicação deverão refletir se não chegou a hora de direcionar aumentos para "novas mídias". De qualquer forma, a comunicação não é gratuita. A hora de investir é agora.

Martin A. Koschat (Professor dos programas Accelerated Executive Development Program, Building on Talent, Orchestrating Winning Performance e Strategic Marketing in Action)

Fonte: Mundo do Marketing (www.mundodomarketing.com.br)

HSM Online
09/04/2010

sábado, 23 de agosto de 2008

Inteligência de mercado: o Marketing da vez

Não tem como discordar de que uma das facilidades que a internet trouxe a todos os seus usuários ao redor do mundo foi a possibilidade de intercambiar, em tempo real, uma profusão de dados até então impensada.

Mas o desafio que se impõe aos empresários de hoje não consiste na acumulação de dados, simplesmente. A dificuldade está na capacidade de convergí-los para informações úteis que servirão de base para a formulação de uma estratégia empresarial à altura do mercado competitivo. Afinal, de que adianta reter quilômetros de dados se não puderem ser utilizados a favor da empresa? Se bem administrados, tais dados podem ser içados à categoria de conhecimento, o que representa uma vantagem competitiva diante da concorrência.

Mas infelizmente ainda há muita corporação por aí que não está em sintonia com essa realidade. Não é raro encontrar executivos que agem de forma reativa aos problemas que surgem na sua empresa, sem qualquer preocupação em traçar uma análise preditiva do mercado em que seu negócio está inserido. Parecem confiar em seus “feelings” ou intuições negociais.

A despeito de inexistir uma receita pronta que garanta sobrevivência às empresas, usufruir dos avanços tecnológicos atualmente disponíveis pode influir diretamente no sucesso de suas trajetórias, evitando que sejam tragadas pela ferocidade dos competidores. E é justamente neste contexto que retomamos à questão de converter simples dados em informações estratégicas.

Ferramentas analíticas de marketing são verdadeiros sistemas de inteligência de mercado que traçam um panorama preciso e detalhado dos clientes. Elas têm o poder de analisar minuciosamente e integrar, de forma sincronizada, múltiplos canais ligados à estrutura da empresa, fornecendo elementos atitudinais valiosos para compor uma estratégia adequada às necessidades de cada um deles. Todo evento que diz respeito a relacionamentos interempresariais (B2B) ou entre os produtos adquiridos por cada cliente (B2C) são captados e armazenados de forma coerente, de modo a balizar o teor das futuras decisões tomadas pela diretoria da empresa.

Para se ter uma idéia do quanto essas ferramentas estão em consonância com as exigências atuais do mercado, basta pensarmos na linha evolutiva por que o Marketing passou nas últimas décadas. Do marketing de massa, em que o produto ainda é o foco principal da campanha, passou-se a adotar o marketing por segmento, que procura atingir as afinidades existentes entre grupos de consumidores. Aos poucos, analistas da área perceberam que a comunicação baseada em eventos, por meio da qual consideram-se as experiências individuais dos clientes, era ideal para que se obtivesse uma margem de retorno sobre o investimento (ROI) ainda maior, reduzindo assim desperdícios com campanhas generalizadas.

O raciocínio é simples: cada cliente deve ter seu comportamento compreendido a partir de uma análise rica em detalhes, visto que essas experiências individuais são elementos essenciais para agregar valores à estratégia de competição de uma corporação, a ponto de fazê-la sobressair perante as demais. Especialistas do setor são praticamente unânimes em dizer que uma das saídas para que uma empresa prospere financeiramente nos tempos atuais é escapar da chamada comoditização dos serviços. E parece óbvio constatar que uma visão mais particular de cada cliente facilita em muito a personalização e a customização da prestação de serviço, afinando o plano estratégico da empresa de acordo com os reais interesses de cada um dos usuários do serviço.

E a tendência daqui para frente é que companhias com perfil de liderança adotem cada vez mais a comunicação sincronizada de multi-canais, através da qual todas as informações e comportamentos do consumidor são analisados em tempo real. Trata-se de um cenário propício para que se criem mecanismos de fidelização do cliente (redução do “churn”), que hoje tem a seu dispor uma infinda lista de opções de compra. E não basta apenas adotar essas práticas. Há de se dar continuidade a elas, conferindo sinergia entre todos os departamentos envolvidos.

O empresário que estuda minuciosamente o comportamento do seu consumidor tem reais chances de retê-lo. Para tanto, ou passa a adotar a inteligência de mercado a seu favor, ou reza piamente para que suas intuições sejam certeiras.

Vaskys, Katia
É country manager da Teradata Brasil, empresa especializada em datawarehousing e soluções analíticas.

segunda-feira, 19 de maio de 2008

A estratégia focada no lucro: como criar novos modelos estratégicos de negócios para vencer no novo ambiente competitivo

Figurando como um dos pensadores mais influentes do mundo, Slywotzky afirma que, se conseguirmos responder as três perguntas abaixo, poderemos fazer a empresa crescer e obter lucro maior do que o da média de seu mercado:
  • De que maneira posso melhorar a vida financeira do meu cliente?
  • De que maneira o item anterior pode aumentar minha lucratividade?
  • Qual é o modelo de negócio desta geração?

Alertou que o termo market share é um conceito traiçoeiro. Antigamente, podíamos afirmar que quem dominasse o market share seria, com certeza, mais lucrativo. Hoje, a situação mudou, afirma o palestrante.

Existe, para o palestrante, uma nova tendência, uma mudança de paradigma, de um modelo antigo de market share de 20 anos atrás para um novo modelo de lucratividade, conectado à migração de valor. Uma das regras de migração de valor é que um modelo de negócio tem vida útil de cinco a seis anos em certos setores e de somente dois a três anos em setores como de tecnologia.

Por isso, os números da receita de uma empresa focada em market share acabam tornando-se uma “maldição” - embora a participação de mercado seja muito importante, a questão é onde é possível criar lucro e como se pode maximizar o market share nesse espaço e não apenas maximizá-lo de forma geral.

Alguns itens estratégicos definem um modelo de negócio. E algumas perguntas podem identificá-los, segundo Slywotzky:
  • Que clientes vamos servir ou não servir?
  • Qual a proposta especial de valor do nosso produto? Por que o cliente quer comprar de mim e não do concorrente? Como a empresa ganha dinheiro no relacionamento com o cliente?
  • Qual é a fonte de controle estratégico? Como protegemos nossa lucratividade num momento em que o mais importante não é a relação com o concorrente mas o poder do cliente cada vez maior?
  • Qual o modelo do seu negócio hoje? Quanto tempo este modelo ainda vai durar?”
  • Qual a lucratividade desejada? Quais são suas áreas não lucrativas dentro e fora dele
  • Daqui a 2 ou 4 anos, seja qual for o ritmo da competitividade, qual será o modelo adequado para continuar a proteger a lucratividade?

O poder do cliente mudou: antes, havia produtos únicos e clientes fragmentados. A balança do pendia 95% do lado do fornecedor. Hoje, em muitos negócios, o consumidor tem a percepção de que o que ele compra é uma commodity. Eles acreditam que têm quatro ou cinco escolhas para aquilo que querem comprar.“

A questão é onde, ao longo desta distribuição de poder, o seu negócio está. A relação está se fortificando ou enfraquecendo? Se está enfraquecendo, que mudanças você tem que fazer em seu negócio? O que nós projetamos no nosso modelo para nos dar controle estratégico e proteger lucratividade?”

“Se o que vendemos é commodity, não há controle estratégico, não há como proteger. Se o que vendemos é uma commodity com vantagem estrutural, aí é possível criar proteção”.

Outra grande mudança de paradigma comentada por Slywotzky é que a prioridade do cliente está mudando rapidamente. Isso dificulta a proteção da lucratividade. “Quais eram as duas ou três prioridades do meu cliente no passado e quais serão elas no futuro? Quais são as duas ou três coisas que eu vou poder fornecer e meus concorrentes não, o que me permitirá receber um plus por isso?”

Autor de vários livros sobre o tema lucratividade, Slywotzky afirmou que as zonas não lucrativas do negócio de uma empresa aparecem como aquelas com maior potencial de crescimento. A crença de que clientes que não dão lucro devem ser eliminados deve ser repensada. Em muitos casos, o problema não reside no cliente, mas no fato de que a empresa tenta aplicar um mesmo modelo de lucratividade para tipos diferentes de clientes..

“Como se obtém o lucro no seu negócio?”, questionou o consultor internacional. Na realidade, existem vários modelos diferentes de lucro. Grande parte deles já foi utilizado e essa experiência pode ser aproveitada. Mas a questão é se seria possível criar um modelo de lucratividade único.

Slywotzky exemplificou essa questão com o case da Toyota. Sim, era possível criar um modelo único de lucro, pois a Toyota é a 5a empresa no seu segmento em termos de volume, mas tem mais valor do que as três primeiras juntas. E isso só tende a crescer. A Toyota está sempre se questionando: qual será o próximo modelo lucrativo de negócio? Ou seja, ela está pensando 10 anos à frente.

A psicologia da lucratividade

Para definir o que é lucratividade, Slywotzky utiliza uma simples frase: a lucratividade nada mais é do que recurso para reinvestimento. Se não há lucro, não há como reinvestir.

É importante analisar o mercado não apenas através da própria lente, mas reconhecer que devemos analisar a economia sistêmica. O produto é a “caixa pequena” e a equação econômica total dos clientes é a “caixa grande”. Devemos analisar o custo do cliente versus o custo total do seu negócio. E analisar: “O que mais devo vender? Quais problemas econômicos devo resolver?”

Gestão estratégica de riscos

Adrian afirma que a melhor forma de proteger a lucratividade é fazer a gestão estratégica de riscos. Sugere que nos questionemos sobre três principais tópicos:

- Quais são os principais riscos que podem prejudicar o meu negócio?
- O que posso fazer a respeito?
- Há como transformá-los numa tendência ascendente de lucratividade?

O alerta do consultor é que os riscos estratégicos estão aumentando. Os riscos não-gerenciados afetam até as melhores equipes e os melhores modelos de negócio. Por isso, a sugestão do professor é que nas próximas semanas você faça uma relação dos maiores riscos estratégicos que podem destruir seu modelo de negócio. “Lembre-se que a cada quatro ou cinco anos devemos reinventar o nosso negócio”, diz Slywotzky, que conclui: “Risco não é mais que um substituto caro para a informação”.


Fonte: Portal HSM On-line 12/03/2008

A Lucratividade dos clientes e canais de distribuição

Como o marketing afeta a lucratividade? É com essa pergunta que David Reibstein iniciou sua palestra.

Uma das maiores inquietações dos empresários, segundo Reibstein, é saber o valor financeiro do marketing, preocupação esta que aumentou principalmente depois da crise de 2001, que fez com que a verba destinada ao marketing fosse reduzida ao longo dos anos.

Na realidade, segundo Reibstein, a pergunta de fato é: “Qual o retorno do investimento em marketing?” Essa é a cobrança da área financeira aos diretores de marketing.

Dados apresentados pelo palestrante mostram que atualmente são os ativos intangíveis e não os tangíveis, que representam a maior parte do valor de uma empresa. Uma mudança de paradigma. Mas quais seriam tais ativos intangíveis?

Certamente, para Reibstein, os três principais são:
  • marca;
  • cliente;
  • propriedade intelectual.

E são acompanhados de canais de distribuição e capital humano. Porém, percebe-se que, embora a ordem de importância possa variar de segmento para segmento, todos esses itens estão muito ligados a marketing.

Isso remete a uma nova questão: “Como rastrear esses ativos?”A percepção da marca é um dos rastreadores. Mas mais uma vez, como justificar um investimento para aumentar tal percepção?

Para ele, a empresa que investe em clientes futuros está investindo em ativos futuros e garante seu crescimento no longo prazo.

Hoje, já não é mais possível fortalecer a marca somente com propaganda. É necessário fortalecer a experiência com o cliente, como fazem Google e Starbucks. No caso desta última, cada loja, cada xícara de café, acaba funcionando como uma propaganda da empresa.

Market share e distribuição

Qual é a relação entre market share e distribuição? Linear, crescente ou decrescente?A maioria pressupõe que é linear. Mas Reibstein afirma que não. Na realidade, o market share impulsiona distribuição e vice-versa, diz ele. À medida que as lojas diminuem, o market share aumenta. O processo é interativo.

Lucratividade do Canal

O palestrante também abordou esse tema, mostrando que é necessário que a empresa identifique um ponto ótimo que maximize ao mesmo tempo a lucratividade dela e do canal de distribuição, sob pena dos interesses diferentes de ambos prejudicarem a relação. Em outras palavras, Reibstein afirma que, sem essa análise, o que normalmente ocorre é que, à medida que a lucratividade do canal aumenta, a do fornecedor diminui. Trata-se do problema de dupla marginalização.

Oferecer desconto por volume é uma das formas de equacionar este problema, mas isso precisa ser feito com métricas e não com base em descontos aleatórios. É preciso criar um sistema de precificação que identifique o ponto ótimo em comum para ambos os lados, baseado em desconto por volume.

A mensagem final

David Reibstein diz que é comum as pessoas perguntarem a ele quais são as métricas que devem ter em seus “painéis de controle”. E ele responde que não há como saber, pois isso depende dos objetivos da empresa. O que ele pode afirmar é que todas essas métricas estão conectadas entre si e com outras ações da empresa.

O importante é que este painel seja simples e claro, ou seja, é preciso que ele tenha um número limitado de métricas, pois informação excessiva atrapalha o processo decisório.

Em suma: para entender como a lucratividade se relaciona com clientes e canais, é preciso analisar seu próprio painel e avaliar com quais métricas sua empresa deve preocupar-se em acompanhar para tomar suas decisões em marketing.

E, com essa mensagem, David Reibstein encerrou sua brilhante palestra, aplaudida pelos presentes no auditório do Teatro Alfa.


Fonte: Portal HSM On-line12/03/2008

segunda-feira, 5 de maio de 2008

Como ser cliente

John Quelch*
Noventa e nove por cento das ações de marketing focam-se em como vender aos clientes. Pouca atenção é dada a aspectos como por que e de que maneira eles, clientes, deveriam vender sua imagem aos "marketeiros".Todos nós sabemos que nem todos os clientes são tratados de igual maneira. Clientes mais importantes recebem tratamento melhor que os de menor relevância. O mesmo ocorre com clientes “fidelizados”. A maioria de nós reconhece – e aceita – essa discriminação.Mas como um cliente pode obter um tratamento melhor àquele que o vendedor acha que ele merece? Existem livros que sugerem como “jogar o jogo” e, por exemplo, devolver um vestido na segunda-feira depois de tê-lo uma única vez no sábado, como explorar a garantia de fábrica, pagar atrasado ou nunca etc.Seguem abaixo cinco comportamentos que, na visão dos vendedores, um bom cliente deve possuir:

Ser exigente: assegure-se que o vendedor sabe que você tem outras opções e que você irá pesquisar mais antes de fazer alguma proposta de compra. Pergunte por referências. Um bom fornecedor terá prazer em fornecer isso. Não receie negociar e deixar o vendedor sem ação, apenas não exagere nisso.

Ser respeitoso: se você quiser que o vendedor seja eficiente, respeite-o. Trate-o como um profissional. Não seja arrogante. Pergunte a opinião dele. Regras como essas se aplicam em ambos as direções.

Passar credibilidade: faça o que você diz que vai fazer. Não faça o vendedor esperar se ele veio visitá-lo após prévio agendamento. Pague em dia. Não tente sugar parte da comissão dele. Não peça serviços gratuitos que não faziam parte do negócio original.

Surpreender positivamente: Recompense um trabalho bem feito. Pague um pouco a mais além do que consta no contrato, se o custo do vendedor claramente excedeu as expectativas ou prometa dar referências dele a conhecidos. Você pode querer fazer negócios com o mesmo fornecedor novamente. Dessa maneira, irá desfrutar mais de um serviço personalizado na próxima vez, se deixar uma boa impressão.

Ser amigável: Diferencie-se como cliente envolvendo o vendedor em uma conversa amigável. Lembre-se que quase sempre você ganha um “extra” do suco de laranja feito na hora, no balcão da lanchonete, se tiver um relacionamento amistoso com o balconista. Trate o vendedor como um semelhante, como alguém que irá resolver seu problema, em vez de considerá-lo um mero “tirador de pedido”. Ele pode confirmar ou expandir sua perspectiva de compra. Em alguns casos, você pode até mesmo ser um expert no assunto e ajudar o vendedor a fazer um melhor trabalho para você.
Obviamente, quando a demanda excede a oferta, os clientes sabem que terão que se comportar na fila, pagar mais do que previam ou aguardar mais para serem atendidos. O marketeiro tem de escolher qual cliente deve ter prioridade – e bons clientes têm posição privilegiada na hora de fazer o pedido.
Qual sua experiência sobre isso? Há outros comportamentos que podem torná-lo mais valioso na visão do seu fornecedor?

Fonte: Harvard Business Online – setembro de 2007

Quelch, John

O autor é professor da Harvard Business School e conhecido mundialmente por suas pesquisas em marketing global.

sexta-feira, 28 de março de 2008

Você sabe envolver os outros em seus projetos?

Conseguir que as pessoas se envolvam no trabalho pelo qual você é responsável está na essência da gestão. Mas o que distingue os melhores líderes é o modo como eles obtêm esse envolvimento. Requisitá-lo é fácil, porém, sabe-se, fazer algo não significa envolver-se. E o envolvimento gera resultados muito superiores.

Os funcionários apóiam genuinamente apenas as coisas que ajudaram a criar, diz o consultor de empresas especializado em mudança Richard H. Axelrod, co-autor de You Don't Have to Do It Alone: How to Involve Others to Get Things Done (ed. PubGroup West). Se você entender isso de fato, mudará para sempre seu modo de gerenciar. Veja a entrevista com Axelrod, a seguir.

Onde os gestores erram quando pensam sobre envolvimento?

A maioria tende a começar pela pergunta "De que tipo de envolvimento eu preciso?". Isso está errado tanto do ponto de vista realista como do humanista. Os realistas acham que precisam de aspectos relativos a conseguir que as coisas sejam feitas, tais como desenvolver um plano e um orçamento para o trabalho, assegurar que o prazo seja cumprido. Já os humanistas, que se preocupam primeiro com as pessoas, querem garantir que todo mundo entenda o que precisa ser feito e se comprometa com o plano, buscam maneiras de lidar com eventuais resistências. Para conseguir envolvimento, você necessita das duas coisas.

De que maneira pensar como humanista e como realista pode ajudar?

Abordar um projeto com ambas as perspectivas ajuda você a avaliar com mais exatidão os diferentes tipos de envolvimento necessários. Por exemplo, os gestores humanistas querem muito que as pessoas comprem a idéia. Esse tipo de envolvimento é de fato importante para projetos de mudança e de prazo mais longo, mas não é o único. Às vezes, você precisa que as pessoas participem de um modo de melhore suas habilidades, para que possam ser mais produtivas e abarcar novas responsabilidades. E há tipos de envolvimento mais "realistas": quando você necessita que os funcionários forneçam habilidades, experiência e conhecimentos que você não possui ou quando a quantidade de trabalho lhe exige tempo e energia extras. Nossa abordagem propõe que se pense não apenas nos tipos de envolvimento, contudo. É preciso levar em conta os graus de envolvimento.

Quem o gestor deve envolver?

Vá além dos candidatos usuais: pessoas que se preocupam com o que está em jogo ou que serão diretamente afetadas pela iniciativa, funcionários com conhecimento e experiência relevantes na área, profissionais que ficam emocionalmente tocados pelo trabalho. É importante incluir abertamente pessoas com pontos de vista diversos, para que isso resulte em soluções mais inovadoras. Por mais estranho que possa soar, há boas razões para adicionar à equipe os resistentes, os detratores e outros funcionários problemáticos. É melhor ter um causador de problemas dentro de uma iniciativa assim do que fora, semeando desconfiança e rejeição. Além disso, se levarem em conta suas objeções seriamente, ele pode ser útil para a equipe.

O que mantém as pessoas envolvidas depois da fase inicial?

Quando as pessoas ficam tão envolvidas com os detalhes de um projeto de grandes proporções que elas nem lembram mais o que estão fazendo, é preciso que lhes seja assegurado que suas contribuições são muito importantes. Há várias coisas que você pode fazer para reconhecê-las: lembre as pessoas do que vai mudar como resultado do esforço coletivo; entregue-lhes relatórios regulares do que vem sendo conseguido; mostre como seus inputs são avaliados. Isso é o que as mantém com foco no jogo.

O encerramento é importante? Se sim, por quê?

É na finalização de um projeto que você constrói as bases para o futuro. Celebrar o que foi obtido faz com que as pessoas desejem participar de outras iniciativas similares. E também há um componente de transferência de conhecimento aí. Na reunião para festejar o primeiro estágio de um projeto que continuará em outras partes da organização, devem-se convidar as pessoas que participarão do segundo estágio. Para elas, será imensamente valioso ouvir o que os pioneiros dizem sobre o que funcionou e o que saiu errado.

Fonte: Portal HSM On-line

quinta-feira, 13 de março de 2008

Análise de Mercado no Plano de Negócios

por Prof. Dr. José Dornelas (dornelas@planodenegocios.com.br)

Como fazer a Análise de Mercado do seu Plano de Negócios

Há dois componentes do plano de negócios que se relacionam com o marketing da organização: a Análise de Mercado e a Estratégia de Marketing. A Análise de Mercado apresenta o entendimento do mercado da empresa, seus clientes, seus concorrentes e quanto a empresa conhece, em dados e informações, o mercado onde atua. A análise do mercado permite ainda se conhecer de perto o ambiente onde o produto/serviço se encontra. O mercado está composto pelo ambiente onde a empresa e produto se localizam, pela concorrência e pelo perfil do consumidor. A definição do mercado leva em conta:

· Análise da Indústria/Setor

· Descrição do Segmento de Mercado

· Análise SWOT do produto/serviço

· Análise da Concorrência

1. Análise da Indústria/Setor A análise da indústria deve apresentar as informações a respeito do tamanho, crescimento e estrutura da indústria/setor em que sua organização está inserida. Inicia-se com a coleta de informação do setor ao qual pertence o produto/serviço. Essa informação é geralmente discriminada em termos dos objetivos e pode estar relacionada com a estrutura da indústria e do setor em termos estatísticos, práticas de marketing e o composto de marketing. Essa informação pode ser usada para monitorar mudanças no setor e aproveitar as oportunidades decorrentes dessas mudanças em nichos específicos.

2. Descrição do Segmento de Mercado Definido o setor em que atua e seu mercado geral, você também quer e precisa saber identificar e clarificar quais porções particulares, ou segmentos deste mercado são seu alvo. O segmento de mercado é definido a partir das características do produto, estilo de vida do consumidor (idade, sexo, renda, profissão, família, personalidade etc) e outros fatores que afetam de uma maneira direta o consumo do produto, como localização geográfica por exemplo. O mercado-alvo não é aquele que você gostaria: é aquele que pode consumir o seu produto. Geralmente, para segmentar um mercado é necessário ter um conhecimento mais abrangente, não somente qualitativo mas também quantitativo do mesmo. Para uma análise inicial procure responder às seguintes questões:

· Qual o market-share (participação de mercado) dentre os principais concorrentes?

· Qual o potencial de mercado?

· O mercado encontra-se bem atendido?

· Quais as oportunidades para o seu produto/serviço obter uma maior participação? Um segmento de mercado é um conjunto de clientes que tem necessidades e desejos em comum. Ao agrupar clientes semelhantes, você pode satisfazer suas necessidades específicas de forma mais eficaz. Quanto mais recursos e opções esses clientes demandam, mais razões você tem para dividi-los em grupos. A figura 6 apresenta uma forma esquemática de como definir o segmento de mercado para seu produto/serviço. Para isso, deve-se responder, basicamente, às seguintes perguntas:

· Quem está comprando?

· O que está comprando?

· Por que está comprando? Quem está Comprando? Uma boa forma para se determinar quem está comprando seu produto ou serviço, é conhecer seus hábitos e como eles vivem. Se seus clientes são outras empresas, descubra como eles operam seu negócio. Pense em seus clientes nos seguintes termos:

Geografia (onde eles moram?). Ex.:

· País, Região, Estado, Cidade, Bairro etc.

· Qual a proximidade de seus vizinhos mais próximos?

· Qual é a temperatura da região onde vivem no verão?

· Quanto tempo levam para chegar ao aeroporto? Perfil (Como eles são?). Ex.:

· Pessoas: Idade, Sexo, Tamanho da Família, Educação, Ocupação, Renda, Etnia, Nacionalidade, Religião etc.

· Empresas: Setor, Porte da Empresa, Número de Funcionários, Anos no Negócio, Faturamento etc. Estilo de Vida (O que eles fazem?). Ex.:

· Pessoas: Passatempos, Hábitos ao assistir TV, Atividades sociais, Afiliação a clubes, Preferências para férias etc.

· Empresas: Proteção do meio ambiente, Doações a eventos beneficentes, Investimento no treinamento dos funcionários, Oferta de benefícios aos funcionários, Promoção de funcionários da empresa etc. Personalidade (Como eles agem?) Pode-se classificar em cinco os tipos básicos de personalidade:

· Inovadores (5% da população): Correm todos os riscos; Jovens e bem educados; Familiarizados com novas idéias e tecnologias; Têm computadores portáteis e estão conectados a redes; Informados por fontes externas.

· Primeiros adeptos (10% da população): Líderes de opinião em suas comunidades; Avaliadores cautelosos; Abertos a argumentos bem justificados; Respeitados por seus companheiros etc.

· Maioria inicial (35% da população): Evitam riscos sempre que possível; agem de forma deliberada; Não experimentam novos produtos, a não ser que se tornem populares etc.

· Maioria tardia (35% da população): Céticos; Extremamente cautelosos; Desapontados com outros produtos; Relutantes com novos produtos, Respondem apenas à pressão de amigos etc.

· Retardatários (15% da população): Esperam até o último momento; Esperam até os produtos ficarem desatualizados; Ainda hesitam! Etc. O que está comprando? Uma descrição de clientes baseada no que eles compram permite que você os veja de uma perspectiva com a qual está bastante familiarizada: seus próprios produtos e serviços. Depois de criar segmentos de mercado baseados no que seus clientes compram, você pode abordar as necessidades de cada grupo, modificando os seguintes aspectos de seu produto ou serviço.

· Características

· Embalagem

· Preço

· Opções de entrega As características referem-se a todas as especificações de um produto ou serviço. Quando você agrupa os clientes em função das características do produto que eles procuram, descobre que os clientes têm muito em comum. Suas semelhanças incluem:

· A freqüência com que usam o produto (pouco, moderadamente, muito)

· Sua habilidade em usar o produto (novatos, intermediários, especialistas)

· O que eles fazem com o produto (lazer, educação, negócios)

· Que tipos de clientes são (consultores, revendedores, usuários) A embalagem envolve muito mais do que caixa, o papel ou plástico. A embalagem refere-se a tudo o que cerca a oferta de um produto, incluindo:

· Propaganda do produto (rádio, TV, revistas, cartazes, camisetas)

· Promoções (vendas nas lojas, cupons, desenhos)

· Marketing (resenhas em livros, campanhas telefônicas, endosso de celebridades)

· Manutenção do produto (garantias, serviços de atendimento ao cliente, centros de serviço) Mais uma vez, é comum os segmentos de mercado identificados com base nos critérios de embalagem refletirem atributos de clientes semelhantes aos segmentos baseados em características do produto: freqüência de uso, nível de sofisticação, aplicação do produto e tipo de usuário. O preço de um tipo específico de produto ou serviço tende a criar diferentes grupos de clientes. Os clientes que são sensíveis ao preço estão em um segmento; os que estão dispostos a pagar por um certo nível de qualidade estão em outro. Mas o preço não é o único fator financeiro que pode levar a diferentes segmentos de mercado. Outros critérios incluem:

· Financiamento disponível

· Opções de leasing

· Satisfação garantida ou seu dinheiro de volta

· Acordo de troca A distribuição e a entrega determinam como os clientes recebem seu produto ou serviço. Nesse caso, os segmentos de mercado baseiam-se em geral em onde os clientes compram, por exemplo:

· Depósitos

· Centros de desconto

· Lojas de Departamento

· Butiques

· Catálogos

· Internet Os segmentos de mercado baseados na entrega também podem considerar outros critérios, como: disponibilidade total de horário (lojas de conveniência); disponibilidade total de local (postos de gasolina); disponibilidade garantida (vídeo locadoras); sensibilidade ao horário (floricultura, pizzarias, frutas e vegetais). Por que está comprando? Quando se trata realmente de satisfazer as necessidades dos clientes a longo prazo, você não pode se esquecer de fazer as seguintes perguntas:

· O que seus clientes estão procurando?

· O que consideram importante?

· O que os motiva?

· Qual é sua percepção das coisas?

· Como fazem suas escolhas? Quando agrupa seus clientes usando as respostas a essas perguntas, você cria segmentos de mercado baseados nos benefícios que os clientes estão procurando. Como esses segmentos de mercado descrevem seus clientes a partir do ponto de vista dos clientes, e não do seu, oferecem melhor oportunidade para que você satisfaça as necessidades específicas de um grupo inteiro de clientes.

3. Análise SWOT do Produto/Serviço Avalie os pontos fortes e fracos dos seus principais concorrentes em relação ao seu produto/serviço. Dessa maneira, será mais fácil para você tentar tornar os pontos fracos deles em oportunidades e melhorar seu produto/serviço de maneira a tentar eliminar as ameaças dos concorrentes e os riscos envolvidos. Resumindo, faça uma análise SWOT do seu produto/serviço.

4. Análise da Concorrência A concorrência deve ser avaliada em relação a produtos/serviços e à organização (nesse caso, sua análise já ocorreu na etapa de planejamento estratégico). De que maneira o produto ou serviço pode ser comparado ao do concorrente? De que maneira ele está organizado? Ele pode tomar decisões mais rápidas do que você? Ele responde rapidamente a mudanças? Tem uma equipe gerencial eficiente? A concorrência é líder ou seguidor no mercado? Eles poderão vir a ser os seus concorrentes no futuro? Consulte a seguinte lista de perguntas sobre a concorrência: Produto ou serviço

· De que maneira é definido um produto ou serviço competitivo?

· Como ele se parece com o seu e com os outros?

· De que maneira ele é diferente do seu e dos outros?

· A concorrência é especialista ou oferece variedade?

· Quais características do seu produto ou serviço satisfazem seu mercado alvo?

· Quais pontos fracos e fortes da concorrência você pode explorar?

· Em que estágio tecnológico você se encontra em relação à concorrência?

· Quanto inovador você é? Comparado à concorrência você se ajusta rapidamente às mudanças tecnológicas?

· Que imagem o consumidor associa à concorrência? Preço

· Qual é a estratégia de preço do concorrente?

· Como é seu preço em relação ao do concorrente?

· Que margens de lucro o concorrente pratica? Praça

· Onde está localizado o concorrente?

· Como é sua localização em relação à dele?

· Ele tem espaço para crescer? Promoção

· De que maneira a concorrência faz a propaganda?

· Quanto eles gastam em propaganda?

· Qual a mensagem?

· A propaganda da concorrência é efetiva? Gerenciamento

· Como é a equipe gerencial do concorrente?

· Qual é seu conhecimento e sua competência?

· Que políticas de recrutamento eles utilizam?

· Eles oferecem treinamento ao seu pessoal?

· Qual a política de salários? Finanças

· O negócio do concorrente é lucrativo?

· Qual o faturamento; com que volumes de venda; com que participação de mercado?

· Eles investem em P&D?

· Qual a estrutura de capital deles? E o fluxo de caixa?

sexta-feira, 7 de março de 2008

A GESTÃO COMO UMA FUNÇÃO SOCIAL

Texto cedido gentilmente pelo Professor Adm. José Hamilton Sampaio, MSc;



Eis o que Peter Drucker escreveu sobre as Estratégias de Gestão ao longo de 60 anos. Um relato, escrito e organizado pelo próprio autor, a merecer a nossa reflexão.

Texto especialmente coletado da revista portuguesa (*), executivedigest.


(*) Texto escrito em português de Portugal.


Na história humana, poucas instituições surgiram tão rapidamente como a gestão ou tiveram um impacto tão súbito. Em menos de 150 anos transformou a estrutura social e económica dos países desenvolvidos. Criou uma economia global e estabeleceu novas regras para os países que participavam nessa economia como iguais. E a própria gestão sofreu transformações. Poucos executivos têm consciência do seu forte impacto. Eles quase nem se apercebem de que praticam — ou «despraticam» — gestão. Qual o resultado? Não estão preparados para enfrentar os grandes desafios com que agora se defrontam. Os verdadeiros problemas que enfrentam não surgem da tecnologia ou da política, não nascem fora da gestão ou da empresa. São, sim, problemas causados pelo sucesso da própria gestão.

É por essa razão que a tarefa fundamental da gestão continua a ser a mesma: tornar as pessoas capazes de um desempenho conjunto, através de uma partilha de objectivos comuns, valores comuns, uma estrutura certa e do desenvolvimento e treino de que necessitam para se adaptarem à mudança. No entanto, o verdadeiro significado desta tarefa mudou, porque a gestão converteu uma força de trabalho composta, na sua maioria, por funcionários não especializados noutra constituída por trabalhadores altamente qualificados.

No limiar da 1.ª Grande Guerra ainda eram poucos os pensadores que estavam alertados para a existência da gestão. Menos ainda os que estavam ligados a ela, e isso até nos países mais desenvolvidos. Ninguém sabia como colocar pessoas com habilidades diferentes e conhecimentos a trabalharem juntas para atingir objectivos comuns.

O conhecimento, principalmente o avançado, é sempre especializado. Mas por si próprio nada produz. Não interessa perguntar o que surgiu primeiro: a explosão educacional dos últimos 100 anos ou a gestão, que deu um uso produtivo a esse conhecimento. A gestão e a empresa modernas não podiam existir sem o conhecimento básico que as sociedades desenvolvidas construíram. Mas, do mesmo modo, é a gestão — e apenas a gestão — que torna efectivo todo esse conhecimento e as pessoas que o possuem. A emergência da gestão transformou o conhecimento de um ornamento social em verdadeiro capital de qualquer economia.

Poucos líderes de negócio podiam prever este desenvolvimento em 1870, quando as grandes empresas começaram a aparecer. Até então, a única grande organização que existia era o Exército.

O modelo de comando, com poucas pessoas no topo a darem ordens e muitas na base a obedecer-lhes, manteve-se a norma durante quase 100 anos. Mas nem sempre foi tão estático como sugere a sua longevidade.

Quando da 1.ª Grande Guerra, as funções standard de um fabricante já se tinham desenvolvido: pesquisa e engenharia, fabrico vendas, finanças e contabilidade, e recursos humanos.

Durante este período de guerra, um grande número de pessoas teve de ser transformadas em trabalhadores qualificados num curto espaço de tempo. Para isso foi aplicada a teoria científica da gestão de Frederick W. Taylor, que analisava e dividia as tarefas em operações individuais e que exigiam pouca habilidade, de modo que fossem rapidamente aprendidas. Mais desenvolvida na 2.ª Guerra Mundial, a formação foi aperfeiçoada pelos Japoneses e, depois, pelos Sul-Coreanos, sendo a base do desenvolvimento.

Nas décadas de 20 e de 30, a gestão já era aplicada a muitas áreas e aspectos da indústria e alguns pioneiros da gestão começaram a questionar o modo como a indústria estava organizada.

Após a 2.ª Guerra Mundial começámos a ver que a gestão não estava excluída do negócio. Refere-se a todos os esforços humanos que juntam numa mesma organização pessoas com conhecimentos e perícias diversos. Necessitou de ser aplicada a todas as instituições do sector terciário (tais como hospitais, universidades, igrejas) cujo crescimento disparou nos Estados Unidos. Em todo o mundo a gestão tornou-se a nova função social.

Um avanço importante na prática e disciplina da gestão é o facto de agora ambas englobarem o empreendorismo e a inovação. Não inovar é razão suficiente para o declínio de qualquer organização. Não saber como gerir é também o fracasso de novas apostas.

Os livros de gestão centram-se na função da gestão dentro das organizações. Porém, ainda são poucos os que a aceitam como uma função social.

Mas afinal o que é a gestão? A sua evolução e história mostra que é, acima de tudo, baseada em princípios essenciais:

A gestão é sobre seres humanos.

Visa tornar as pessoas capazes de um desempenho conjunto, as suas forças efectivas e as fraquezas irrelevantes. Porque trabalha com a integração de pessoas num caminho comum, a gestão está profundamente inserida na cultura. O que os gestores fazem nos diferentes países é a mesma coisa. A forma como o fazem é que diverge. Por isso um dos maiores desafios dos gestores é identificar as partes da sua tradição, história e cultura que podem ser usadas como instrumentos de gestão.

Todas as empresas exigem um compromisso com os objectivos comuns e valores partilhados. Sem eles, não existem empresas.Uma das primeiras tarefas da gestão é estabelecê-los.

A gestão deverá permitir que as empresas e os seus membros cresçam e se desenvolvam consoante as necessidades e oportunidades. Formação e desenvolvimento deverão ser contínuos.

Cada organização é constituída por pessoas com diferentes capacidades e conhecimentos, que desempenham diferentes trabalhos. Por isso ela deverá estar assente em comunicação e responsabilidade individual.

Uma organização necessita de uma diversidade de medidas para determinar a sua «saúde» e desempenho. Posicionamento no mercado, inovação, produtividade, desenvolvimento de pessoas, qualidade, resultados financeiros, são cruciais ao desempenho da empresa e à sua sobrevivência.

Os resultados de uma empresa só existem fora dela. Dentro da empresa apenas existem custos. O resultado de um negócio é satisfazer o consumidor.

Quem perceber e agir de acordo com estes princípios atingirá mais facilmente os seus objectivos. A gestão lida com acção e aplicação e testa os seus resultados, o que a torna uma tecnologia. No entanto, também lida com pessoas, os seus valores, crescimento e desenvolvimento, o que a torna uma função humana. É aquilo a que a tradição costumava chamar de «arte liberal» — arte, porque está ligada à prática e aplicação, liberal, porque trabalha com os fundamentos do conhecimento, auto-conhecimento, sabedoria e liderança. Cada vez mais a gestão será a disciplina e a prática através da qual os estudos humanísticos ganharão novamente reconhecimento, impacto e relevância.

As dimensões da gestão.

Todas as empresas são órgãos da sociedade. Existem para preencher um propósito social específico e para satisfazer uma necessidade específica de uma sociedade, de uma comunidade ou de apenas indivíduos. A gestão, por sua vez, é o órgão da instituição.

Existem três tarefas que a gestão tem de desempenhar para que a instituição funcione e dê a sua contribuição:

1. Estabelecer o fim específico e a missão da instituição, qualquer que ela seja;

2. Tornar o trabalho mais produtivo e o trabalhador mais eficiente;

3. Gerir os impactos e responsabilidades sociais.

Propósito e objectivos.

Quando confrontado com a pergunta «O que é um negócio?», o típico homem de negócios responde: «Uma organização para fazer lucro.» A mesma resposta será dada pelo economista típico. Porém, além de falsa, esta resposta é irrelevante. O perigo reside no conceito de maximização de lucros que faz parecer o acto de gerar lucros um mito. Os lucros e a geração de lucros são cruciais, quer para a sociedade quer para o negócio individual. O lucro não é a explicação, causa ou razão dos comportamentos de um negócio, mas antes o teste à sua validade.

Para se compreender o que é um negócio é preciso começar pelo seu propósito, que deverá basear-se na própria sociedade. Existe apenas uma definição válida do propósito do negócio: criar um cliente. É o cliente que determina o que é o negócio. Por tudo isto a empresa tem apenas duas funções básicas: o marketing e a inovação.

Com o devido respeito pela missão do negócio e pelo seu propósito, existe só um ponto de partida para o definir: o cliente. Satisfazer o consumidor é a missão e o propósito de qualquer negócio. E por isso a pergunta — «Qual o nosso negócio?» — só pode ser respondida olhando para o negócio do ponto de vista do consumidor e do mercado.

No entanto, a gestão é obrigada a adicionar mais duas perguntas: «O que vai ser o nosso negócior?», que engloba já a adaptação a mudanças antecipadas, e «O que deverá ser o nosso negócio?», tendo em conta as oportunidades que podem levar a que o negócio entre por caminhos novos e diferentes.

Definir o propósito e a missão de negócio é difícil, doloroso e arriscado. Mas é a única forma que permite estipular objectivos, desenvolver estratégias, concentrar recursos e trabalhar. É o exclusivo modo de fazer com que o negócio seja gerido pelo desempenho.

As definições básicas do negócio, do seu propósito e missão têm de ser traduzidas em objectivos que representem a estratégia fundamental de um negócio. Estes objectivos têm de ser operacionais, tornando possível a concentração de recursos e esforços. É por isso obrigatório existirem múltiplos objectivos, que digam respeito às diferentes áreas de que está dependente a sobrevivência do negócio. Objectivos de marketing, objectivos de inovação, objectivos de recursos, objectivos de produtividade, objectivos de responsabilidades sociais — todos têm de estar definidos.

Os objectivos são direcções. Não são comandos; são compromissos. Não determinam o futuro; são meios para mobilizar os recursos e energias do negócio para construir o futuro. Só depois será possível planear os lucros.

Novos paradigmas da gestão.

As hipóteses básicas sobre a realidade são os paradigmas de uma ciência social como a gestão. Partem de eruditos, escritores, professores ou praticantes e são incorporadas na disciplina, sendo o que a disciplina assume como realidade.

Porém, apesar de importantes, estas hipóteses raramente são analisadas, estudadas, modificadas. Na verdade, quase nunca são tornadas explícitas.

Para uma disciplina social como a gestão, elas são muito mais importantes que os paradigmas o são para as ciências naturais. Uma disciplina social lida com o comportamento das pessoas e das instituições humanas. Por isso os praticantes tendem a agir e a comportar-se tal como as hipóteses da disciplina o aconselham. O universo social não possui «regras naturais» e por isso está sujeito a mudança constante, o que implica que as regras que hoje são válidas amanhã já o não possam ser.

Desde que o estudo da gestão começou, podem ser identificados dois conjuntos de hipóteses. O primeiro diz respeito à disciplina e assume que a gestão é gestão de negócios, que existe uma estrutura organizacional correcta e uma forma correcta de gerir pessoas. O segundo conjunto de pressupostos está ligado à prática da gestão e defende que as tecnologias, os mercados e os usos finais são dados, que o campo de acção está legalmente definido, que a gestão se foca no interior da organização e que a economia é a «ecologia» da empresa e da gestão, pois os resultados só existem fora da instituição.

Isto leva a um novo paradigma da gestão: tudo o que afecta o desempenho da instituição e os seus resultados é do domínio da gestão. Escolher pessoas

Os executivos passam a maior parte do tempo a gerir pessoas e a tomar decisões relacionadas com pessoas. E, no entanto, é a área onde é mais fraco o desempenho dos gestores.

Julgar uma pessoa de modo infalível é algo que não existe. Porém, há executivos que sabem tomar decisões sobre as pessoas porque aplicam determinados princípios básicos:

1.º Se colocar uma pessoa a realizar uma tarefa que não consegue desempenhar, está a cometer um erro.

2.º É dever do gestor assegurar que as pessoas com cargos de responsabilidade desempenhem as suas funções.

3.º De todas as decisões, as relacionadas com as pessoas são as mais importantes, pois determinam a capacidade de desempenho da organização.

4.º Não dê aos novos funcionários tarefas muito importantes para a empresa, pois isso envolve grandes riscos.

Além dos princípios básicos, existem passos essenciais na tomada de decisões de promoção e contratação de pessoal:

1.º Pensar na tarefa a desempenhar, descrevendo-a pormenorizadamente.

2.º Considerar sempre um conjunto de candidatos qualificados — entre três a cinco pessoas, no máximo.

3.º Pensar seriamente na forma como se analisam os candidatos.

4.º Discutir as capacidades dos candidatos com pessoas que trabalharam anteriormente com eles.

5.º Garantir que o candidato perceba todas as exigências da função.

Mesmo que os gestores sigam todos estes passos, algumas decisões podem falhar. Essas são as decisões de alto risco, que, não obstante, têm de ser tomadas.

Um novo desafio.

Quando se pretende lançar um novo desafio, só existe uma ideia. Pode ser um produto ou um serviço. No entanto, é algo flexível, que não pode ser chamado de negócio, pois as pessoas ainda não sabem para onde vão e o que é suposto fazerem ou atingirem.

Nesta situação é exigido à gestão:

Ter um foco de mercado. Pode afastar-se da ideia inicial, mas só será bem-sucedido se forem criadas oportunidades. Deverá partir do pressuposto de que a nova aposta vai encontrar clientes em mercados ainda desconhecidos, em usos para os quais não foi concebido e que será comprado por clientes fora do campo de visão e mesmo desconhecidos. Apenas requer sensibilidade e um pouco de trabalho sistemático.

Fazer uma previsão financeira. A inexistência de uma estrutura financeira e de um sistema de financiamento adequados é uma das maiores ameaças ao crescimento da nova aposta. Nas fases iniciais deve dar-se ênfase ao cash-flow, ao capital e ao controlo, em detrimento dos lucros.

Criar uma equipa de gestão de topo. Uma falha ao nível da gestão de topo é meio caminho andado para o fracasso. O ideal é criar a equipa de gestão antes de ela ser necessária.

O fundador tem de determinar claramente o seu papel na área de trabalho e relacionamentos. No entanto, é aconselhável pedir conselho a alguém alheio ao novo desafio.

Estratégias empreendedoras.

Do mesmo modo que o empreendorismo necessita de uma gestão empreendedora, ou seja, práticas e políticas dentro da empresa, também precisa de práticas e políticas do exterior, no próprio mercado. Necessita, assim, de estratégias empreendedoras.

Importantes, distintas e diferentes, são quatro as estratégias que existem:

«Entrar em força com o melhor». — Nesta estratégia procura-se a liderança, se não o domínio, do novo mercado ou nova indústria. Não se deseja criar um grande negócio de um dia para o outro, apesar de muitas vezes ser essa a ambição. Muitos consideram ser a estratégia empreendedora por excelência. Porém, nem chega a ser a dominante, já que não permite quaisquer erros e não comporta segundas oportunidades. Caso seja bem-sucedida, é a mais compensadora. Para isso é preciso acertar em cheio no alvo, o que requer uma análise cuidada e estruturada. Logo que a inovação se torne um negócio de sucesso, começa o trabalho. Há que investir num processo de pesquisa contínuo. Têm de ser encontrados novos usos e clientes, e é necessário reduzir sistematicamente os preços do produto ou processo.

«Dar o golpe onde eles não estão». Esta estratégia acaba por ter duas variantes. Na imitação criativa, o empreendedor faz algo que os outros já fizeram, mas compreende melhor que o criador aquilo que a inovação representa. Assim, espera até que alguém tenha a novidade quase estabelecida para começar a trabalhar, e em pouco tempo lança aquilo que o cliente realmente procura, tomando conta do mercado. Esta é mais uma estratégia que procura a liderança e, em último caso, o domínio do mercado. Mas é menos arriscada, pois o mercado já está estabelecido e a nova aposta aceite. É uma estratégia em que os sucessos dos outros são explorados pelo imitador criativo, que se limita a aperfeiçoar e a posicionar o produto ou serviço. A segunda variante desta estratégia é o «judo» empreendedor, que consiste no aproveitamento das rejeições das outras empresas. A ideia surge por parte de outros que não se mostram interessados em desenvolvê--la e que acaba por ser desenvolvida e aplicada por alguém que lhe garante o sucesso. Comporta riscos ínfimos e tem grandes hipóteses de ser bem-sucedida.

Encontrar e ocupar um «nicho ecológico» especializado. — Os adeptos desta estratégia caracterizam-se por ficarem com o dinheiro e não com os créditos, vivendo no anonimato. Existem três versões distintas desta estratégia: a estratégia de portagem, a estratégia da especialidade de perícia e a estratégia da especialidade de mercado. A posição de portagem é a mais desejada, mas exige que o produto seja essencial a um determinado processo, implicando que a primeira pessoa a ocupar o mercado ganhe um controlo total sobre ele. Normalmente, é um nicho de mercado pequeno, que deixa de ser atraente para os concorrentes, pois esta posição é estática. Uma vez ocupado, o «nicho ecológico» não mostra grandes probabilidades de crescimento. Por seu turno, a estratégia da especialidade de perícia refere-se a um nicho de mercado consideravelmente maior, mas na mesma único. O segredo é ganhar uma perícia única no início da indústria, do mercado, da tendência. Apesar de apresentar vantagens únicas, também tem severas limitações. Primeiro porque a empresa não se pode afastar do âmbito da sua especialidade e segundo porque é normal depender de terceiros, que compram os seus produtos ou serviços. A estratégia de especialidade de mercado é semelhante à anterior, à excepção de que, em vez de ser construída à volta de um produto ou serviço, é especializada no conhecimento de determinado mercado.

Mudar as características económicas do produto, mercado ou indústria. — Ao contrário das anteriores, esta estratégia é em si mesma a inovação. Transforma um produto ou serviço antigo e estabelecido em algo novo. Todas as suas variantes criam clientes, ou seja, o último propósito de um negócio. A primeira variante consiste em criar utilidade, permitindo que os clientes utilizem o produto ou serviço do modo que melhor responde aos seus propósitos. Estabelecer um preço é outra estratégia possível, passando pela oferta de um produto com o intuito de vender outro, já que o cliente paga pelo que compra, não por aquilo que o fornecedor fabrica. A realidade do consumidor é outra variante que passa por os produtores assumirem o consumidor como um ser racional e apostarem em ouvir os seus clientes. Entregar valor ao consumidor é a última variante das estratégias inovadoras. Ao fim e ao cabo trata-se de marketing elementar.

A eficiência tem de ser aprendida.

Ser eficiente é o trabalho do funcionário conhecedor. Pelo menos é o que esperam dele. Mas as pessoas mais eficientes «brilham» mesmo na ausência de trabalhos que requeiram elevados conhecimentos. Já a inteligência e a criatividade são bastante comuns neste tipo de trabalhos. Inteligência, imaginação e conhecimento são recursos essenciais, mas apenas a eficiência os pode transformar em resultados. Por si próprios apenas estabelecem limites para aquilo que é possível atingir.

A necessidade de eficiência devia ser óbvia. Mas existe uma razão que leva este factor a ser neglicenciado: a tecnologia específica do funcionário com conhecimentos dentro da organização. Até há pouco tempo era raro encontrar este tipo de funcionários numa organização. Hoje, a grande organização do conhecimento é a realidade central. Por isso a eficiência não pode continuar a ser negligenciada.

Para que o trabalho que exige conhecimento seja eficiente é necessário trabalhar as coisas certas. Estes funcionários não podem ser supervisionados de perto ou em pormenor. Só podem ser ajudados. A sua motivação depende da sua capacidade de ser eficiente.

Todo o trabalhador com conhecimento numa organização moderna é um executivo, se for responsável por uma contribuição que afectamaterialmente a capacidade de desempenho ou de obtenção de resultados da organização. É suposto o executivo, em virtude do seu conhecimento, estar melhor preparado para tomar as devidas decisões.

Eu chamo executivos a todos os trabalhadores com conhecimento, gestores ou profissionais individuais que têm de tomar decisões no seu trabalho. O que muitos ainda desconhecem é que existem imensos executivos, mesmo nas organizações mais insignificantes. O seu alcance pode até ser bastante limitado, mas na sua esfera de acção é executivo. E, quer seja director executivo ou um principiante, necessita de ser eficiente.

As realidades destes trabalhadores exigem eficiência, tornando-a ao mesmo tempo difícil de atingir. Existem quatro realidades principais sobre as quais o controlo é praticamente nulo. O executivo não as pode mudar. São condições necessárias à sua existência. E ele tem de fazer todos os esforços necessários para se tornar eficiente.

A primeira realidade é a de que o seu tempo pertence a todas as pessoas. Ele não pode negar-se a falar com quem quer que seja. E todos usam e abusam do seu tempo. Por outro lado, os executivos são forçados a manterem-se operacionais, a não ser que tomem uma decisão para mudar a realidade em que vivem e trabalham. Esta é a segunda realidade, que explica que, caso o executivo permita que os acontecimentos determinem o que ele deve fazer e aquilo em que deve trabalhar ou tomar em consideração, irá desperdiçar-se ao tentar manter-se operacional. O executivo necessita de critérios que lhe permitam trabalhar naquilo que é realmente importante, ou seja, nas contribuições e resultados. A terceira realidade é que ele existe dentro de uma organização, o que significa que só pode ser eficiente se e quando as outras pessoas fazem uso das suas contribuições. Só o poderá ser se atingir essas pessoas. Por último, o executivo está dentro da organização, ou seja, entende a organização como a realidade imediata, desconhecendo o que se passa fora dela. A ligação à organização poderá ser um forte entrave à percepção da verdadeira realidade.

Aumentar a eficácia é capaz de ser a única maneira de melhorar os níveis de desempenho, conquista e satisfação dos trabalhadores com conhecimento. As organizações terão de ser consti-tuídas por pessoas que têm uma área que dominam ou desempenham melhor. Saber usar essas pessoas é o único caminho para a excelência.

Não existe uma «personalidade eficiente». A única coisa que as pessoas eficientes que conheci possuem é a habilidade de conseguirem fazer as coisas certas, ou seja, as práticas que os tornam eficientes onde quer que estejam.

A eficiência é um conjunto de práticas que podem ser aprendidas.

Conheça as forças e valores.

Durante a vida laboral, os trabalhadores com conhecimento vão ter de aprender a gerir-se a si próprios. Terão de saber posicionar-se onde melhor desempenhem funções. Terão de estar em aprendizagem contínua para poderem desenvolver-se a si próprios. Terão de saber como e quando devem mudar, o que fazem, como fazem e, acima de tudo, quando é que fazem.

Este tipo de funcionários é capaz de passar a vida inteira a trabalhar para uma determinada organização. Porém, a esperança de vida de um negócio de sucesso é de apenas 30 anos — e num período de turbulência como aquele que atravessamos é bastante provável que não seja tão longa. Por essa razão, os profissionais terão de estar preparados para mais de um emprego, mais de um contrato, mais de uma carreira.

A maioria está enganada quando pensa que sabe aquilo em que é perita. As pessoas sabem apenas aquilo em que não são boas. Até há pouco tempo, conhecer as próprias forças era irrelevante. Agora, as pessoas têm escolhas a fazer e têm de conhecer as suas forças para saberem onde pertencem.

Só recorrendo à análise de feedback isso é possível. Assim, sempre que se tome uma decisão importante ou se proceda a uma acção de destaque, há que anotar as expectativas subjacentes. Quando os resultados forem conhecidos, basta compará-los com as expectativas, tornando perceptíveis as áreas em que se é menos competente. Mostrando as áreas onde não se possui grande conhecimento e que, porisso, não é possível serem desempenhadas.

Logo que a análise seja feita, há que concentrar-se nas suas forças, trabalhar para as melhorar, identificar em que aspectos a arrogância intelectual pode levar à ignorância, ultrapassar os maus hábitos e, finalmente, perder o mínimo de tempo possível a tentar melhorar áreas de baixa competência.

Tal como as forças, a forma como desempenhamos qualquer tarefa é individual e está dependente do modo como aprendemos. A capacidade de trabalhar em equipa, sob pressão, entre outros, identifica claramente o modo de desempenho do indivíduo.

Os valores de cada um também são de extrema importância. As organizações são obrigadas a ter valores. Mas as pessoas também. Para se ser realmente eficiente é necessário que os valores da organização e do funcionários sejam compatíveis. Não precisam de ser os mesmos, mas têm de estar próximos para que os funcionários não se sintam frustrados.

Isto permite identificar onde uma pessoa pertence. As carreiras de sucesso não são planeadas, estão preparadas para a oportunidade, porque as pessoas conhecem as suas forças, a forma como trabalham e os seus valores.

Conheça o seu tempo.

Planear o trabalho é uma tarefa que raramente resulta. Os planos ficam no papel e não passam de boas intenções. Na minha opinião, os trabalhadores eficazes não se podem medir pelas suas tarefas. Começam pelo seu tempo. Não o planeiam, apenas descobrem para onde o canalizar. Tentam geri-lo e cortar as exigências improdutivas. E, finalmente, consolidam-no. Ao fazê-lo, estão a caminhar para a fundação da verdadeira eficiência executiva.

As pessoas eficientes sabem que o tempo é um factor limitativo. Apesar de a maioria pensar que tem garantido este recurso único, insubstituível e necessário, a humanidade está mal preparada para geri-lo. Para o saber fazer é preciso saber primeiro como canalizá-lo.

Em todos os trabalhos, grande parte do tempo é gasta em tarefas que, apesar de necessitarem de ser efectuadas, resultam num contributo praticamente nulo. No entanto, para atingir a verdadeira eficiência, todos os trabalhadores, especialmente os executivos,precisam de ter tempo. Por outro lado, há que ter tempo para olhar para os resultados e objectivos de desempenho da organização e, consequentemente, afastar a atenção do seu próprio trabalho e objectivos. Acima de tudo, é muito importante perceber que a eficiência e os custos são os aspectos que distinguem gasto de tempo de perda de tempo.

Para saber rentabilizar o seu tempo basta identificar e eliminar aquilo que não precisa de ser feito, ou seja, aquilo que é pura perda de tempo. O segundo passo consiste em determinar as tarefas que podem ser desempenhadas por outras pessoas, mantendo os mesmos padrões de qualidade, se não melhores. Outra causa comum da perda de tempo está exclusivamente sob o controlo do executivo e pode ser eliminada com facilidade — o tempo dos outros que ele próprio desperdiça.

A perda de tempo está muitas vezes associada a uma deficiência da gestão ou organizacional. Falha do sistema ou de previsão, excesso de pessoal, má organização, mau funcionamento da informação, são alguns exemplos.

O executivo que identifica e analisa o seu tempo poderá determinar facilmente o tempo de que dispõe para as tarefas mais importantes.

Liderança como trabalho.

A liderança está na moda. Abundam os livros, artigos e conferências sobre liderança e as «qualidades» de um líder. É certo que a liderança é importante, mas é bem diferente daquilo que hoje lhe está associado. Tem pouco a ver com «qualidades de liderança» e muito menos com «carisma». É mundana, nada romântica e enfadonha. A sua essência é o desempenho.

Em primeiro lugar, a liderança não é, por si só, boa ou desejável. A liderança é um meio. Assim, liderança para um fim especial é a questão fundamental.

A liderança eficiente não depende do carisma. Aliás, o carisma é a ruína dos líderes. Torna-os inflexíveis, convencidos da sua própria infalibilidade, não aceitando a mudança. Por si só, o carisma não garante a eficácia de um líder. Além de não existirem coisas tais como «qualidades de liderança» e «personalidade de liderança».

Então, se não se trata de carisma nem de um conjunto de traços de personalidade, em que é que consiste a liderança? Em primeiro lugar, trata-se de trabalho. A origem de uma liderança correcta está em pensar na missão empresarial, defini-la e estabelecê-la de forma clara e visível. O líder determina os objectivos, as prioridades e os modelos a seguir. E compromete-se, já que sabe que não detém controlo sobre tudo. A compatibilidade do compromisso assumido com a missão e objectivos da empresa determina a sua eficiência. Do mesmo modo que os modelos por ele estabelecidos mostram se possui seguidores.

O segundo requisito de um líder é ver a liderança como uma responsabilidade, nunca como um posto ou privilégio. Os líderes eficientes raramente são «permissivos». Mas quando algo corre mal não culpam os outros. Isto porque sabem que eles próprios, e só eles, são os responsáveis. Não têm receio das qualidades dos seus sócios ou subordinados. Aliás, encorajam-nos, impulsionam-nos, glorificam-nos, porque vêem os triunfos deles como seus. O líder sabe que a ambição dessas pessoas pode ser uma ameaça. Mas também sabe que esta é uma ameaça bem menor que ser servido pela mediocridade.

Ganhar confiança é o requisito final de um líder. Confiar no líder não implica gostar dele ou concordar com ele. Se ela não existir, o líder não terá seguidores e, como tal, não será líder.

A segunda metade da vida.

Pela primeira vez na história humana, os indivíduos podem durar mais tempo que as organizações. O que cria um desafio completamente novo. O que fazer com a segunda metade da vida?

Não podemos esperar que a empresa em que trabalhamos aos 30 anos continue a existir quando tivermos 60. Porém, 40 ou 50 anos no mesmo emprego é muito tempo para a maioria das pessoas. Elas deterioram-se, aborrecem--se e perdem toda a alegria no trabalho, tornando-se um fardo para eles próprios e para quem os rodeia.

Hoje fala-se muito em «crise de meia-idade» do executivo. Mas na verdade trata-se de aborrecimento. Aos 45 anos, a maioria dos executivos já atingiu o pico das carreiras e tem disso plena consciência. Passados 20 anos a fazer o mesmo tipo de trabalho, são bonsnquilo que fazem. Mas poucos ainda estão a aprender e ainda menos esperam que o trabalho lhes traga novos desafios ou qualquer satisfação.

Os trabalhadores cujas tarefas dependem essencialmente do trabalho ma-nual estão física e mentalmente cansados muito antes do fim da sua esperança de vida, ou seja, muito antes da idade de reforma. Estão acabados e, por isso, ficam felizes por passarem 10 ou 15 anos apenas dedicados a actividades lúdicas.

Porém, os trabalhadores cuja ferramenta de trabalho é o conhecimento não estão acabados. Estão perfeitamente aptos para trabalhar e para encarar mais 15 ou 20 anos de trabalho. Basta saber gerir-se a si próprio, ou seja, preparar-se para «a segunda metade da vida».

Existem três formas de o fazer.

A primeira é começar uma carreira diferente, o que muitas vezes significa mudar de um tipo de organização para outro. Em muitos casos até ficam a desempenhar o mesmo tipo de trabalho. Porém, já se torna normal vermos pessoas entrar por vertentes de trabalho completamente distintas.

Outra hipótese plausível passa por desenvolver uma carreira paralela. São várias as pessoas que o estão a fazer. Assim, mantêm os seus empregos, mas começam a dedicar tempo a outro trabalho.

A terceira opção são os chamados «empreendedores sociais» — as pessoas que foram bem-sucedidas na sua primeira profissão, mas que, apesar de gostarem do trabalho, já não vêem nele qualquer desafio. Em muitos casos continuam a desempenhar as mesmas funções, mas começam uma nova actividade, normalmente não lucrativa.

As que conseguem gerir a segunda metade da vida são ainda uma minoria. Mas é dessa minoria que irão surgir os líderes e os modelos.

É dessa minoria que vão aparecer as «histórias de sucesso».

Mas gerir a segunda metade da vida exige que se comece a criá-la muito tempo antes. Isto irá ganhar cada vez mais importância,principalmente numa sociedade em que o sucesso se tornou uma prioridade.

Aliás, a emergência da capacidade de poder e saber gerir a própria carreira está a transformar a sociedade.

A pessoa instruída.

O conhecimento não é impessoal, como o dinheiro. O conhecimento não reside num livro, numa base de dados, num programa de software. Aqui só se encontra informação. O conhecimento está na própria pessoa. Só ela o pode criar, aumentar, melhorar e aplicar. É por isso que a pessoa instruída é o centro da sociedade do conhecimento.

É ela que define a capacidade de desempenho da sociedade. Mas incorpora também os valores, crenças e compromissos dessa sociedade. Como o cavaleiro feudal era o representante da sociedade da Idade Média, a pessoa instruída representa a sociedade do mundo pós-capitalista, no qual o conhecimento se tornou um recurso central.

Isto irá mudar o verdadeiro sentido da «pessoa instruída». Mudará o sentido de tudo o que signifique ser «instruído». E tornará a esta definição um aspecto essencial. Com o conhecimento a tornar-se o recurso-chave, a pessoa instruída enfrenta novas exigências, novos desafios, novas responsabilidades. A sociedade do conhecimento deverá centrar-se no conceito de «pessoa instruída». Terá de ser um conceito universal, precisamente porque esta é uma sociedade de conhecimento, porque é global, exigindo, por conseguinte, uma força unificadora. Essa pessoa precisa de ser capaz de aplicar o seu conhecimento para gerar o presente, já para não falar no seu papel no processo de moldar o futuro. Terá de estar preparada para a vida no mundo global. Terá de tornar-se um «cidadão do mundo» — em visão, horizonte e informação.

A sociedade pós-capitalista é, ao mesmo tempo, uma sociedade de conhecimento e das organizações, ambas dependentes uma da outra e, no entanto, distintas em conceitos, visão e valores. A maioria dessas pessoas irá aplicar o seu conhecimento como membro de uma organização. Portanto, terá de estar preparada para viver e trabalhar simultaneamente em duas culturas — a do intelectual, que se centra nas palavras e ideias, e a do gestor, que se debruça sobre as pessoas e o trabalho.

O mundo do intelectual, a não ser que contrabalançado com o do gestor, é o mundo em que todos «fazem as suas próprias coisas» mas ninguém alcança qualquer resultado. Por seu turno, o mundo do gestor, a não ser que comunado com o do intelectual, torna--se a burocracia exagerada do «homem organizacional». Porém, se equilibrados, os dois mundos podem gerar criatividade, ordem, realização e missão.

Todas as pessoas instruídas na sociedade pós-capitalista terão de estar preparadas para compreender ambas as culturas. E o que as vai distinguir na sociedade do conhecimento é precisamente a capacidade de compreender quase tudo. Sem essa compreensão, os próprios conhecimentos tornam-se estéreis, deixando de ser «conhecimentos». Todos são igualmente valiosos. Mas torná-los «caminhos para a verdade» é da responsabilidade daqueles que os detêm. Em conjunto, elas possuem o conhecimento da verdade.

Podemos, no entanto, fazer uma previsão: a maior mudança que se irá verificar será a mudança no conhecimen-to — na sua forma e conteúdo, no seu significado, na sua responsabilidade, e até mesmo naquilo que actualmente se entende por «pessoa instruída».

Transformação da sociedade.

Nenhum século na história humana experimentou tantas transformações sociais, e tão radicais, como o século XX. Elas são os acontecimentos mais importantes do século e o seu último legado. Pode até ter sido o mais violento e cruel da história, com as suas guerras mundiais e civis, as suas torturas em massa, depurações étnicas e genocídios. Tudo mortes sem sentido, horrores insensatos.

Aliás, se este século prova alguma coisa, é a futilidade da política. Até o crente mais dogmático no determinismo histórico tem dificuldade em explicar as transformações sociais deste século. Mas são elas que tiveram o mais longo, até mesmo permanente, efeito.

Elas transformaram a sociedade e a economia, a comunidade, o regime.

Antes da 1.ª Grande Guerra, o maior grupo de qualquer país era os agricultores. Actualmente, representam apenas 5% da população empregada dos países desenvolvidos, ou seja, um décimo do que era há 80 anos atrás. O segundo maior grupo era constituído por

criados internos. Passados 80 anos, esta categoria está praticamente extinta nos países desenvolvidos. Estes grupos não representavam só a maioria da população. Juntos, foram a fundação da economia e da sociedade, a origem da «civilização».

A principal razão pela qual esta transformação não causou grande tumulto foi o aparecimento de uma nova classe, que se tornou socialmente dominante: a classe operária. O operário tornou-se a «questão social» por excelência, porque era a primeira «classe baixa» da História que podia ser organizada e assim se manter. Nenhuma outra classe na História subiu tão depressa como esta.

E nenhuma outra caiu tão rapidamente.

Em 1900, o termo «trabalhador industrial» tornou-se sinónimo de «operador de máquinas» numa fábrica que empregava centenas, se não milhares, de pessoas. Nesta altura, os trabalhadores não tinham qualquer pensão, férias pagas, nem pagamento de horas extraordinárias, nem seguro de saúde, nem compensações de desemprego, nem qualquer segurança no trabalho.

Nos anos 50 os operários industriais já se tinham tornado o maior grupo em todos os países desenvolvidos. Tornaram-se eminentemente respeitáveis e economicamente passaram a ser a classe média. Detinham segurança no trabalho, pensões, férias pagas, subsídios de desemprego. Acima de tudo, tinham adquirido poder político.

Porém, nos anos 90, os operários tornaram-se marginais. Enquanto equivaliam a dois quintos da população empregada norte-americana, nos anos 50 passaram a representar apenas um quinto. O que leva a crer que poderão tornar-se apenas mais um grupo de pressão.

Ao contrário das previsões marxistas e sindicalistas, a ascensão do trabalhador industrial mostrou ser o desenvolvimento social do século mais estabilizador.

O novo grupo emergente, que substituiu os operários, é constituído pelos trabalhadores com conhecimento. A maioria recebe salários iguais ou até mesmo superiores aos operários. Além de que os novos trabalhos oferecem maiores oportunidades ao próprio indivíduo.

Mas, ao contrário do que aconteceu com os agricultores e os criados, que transitaram sem problemas para operários, os trabalhadores industriais deslocados não podem simplesmente passar a desempenhar funções dos trabalhadores com conhecimento. Estes trabalhos requerem uma educação formal e a capacidade de adquirir e aplicar conhecimentos teórico e analítico. Acima de tudo, requer o hábito da aprendizagem contínua.

Os trabalhadores com conhecimento não serão a grande maioria da sociedade do conhecimento. Mas serão, sem dúvida, a classe líder.

Primeiro porque o acesso ao trabalho, emprego, posição social, tudo é ganho através de uma educação formal, tornando a educação o centro da sociedade do conhecimento e o ensino a instituição mais importante.

O sentido do termo «pessoa instruída» também será redefinido, já que a sociedade do conhecimento será muito mais competitiva do que qualquer outra sociedade até agora conhecida. Não vão existir desculpas para a existência de desempenho pela simples razão de que o conhecimento estará universalmente acessível. Não existirão «países pobres», mas sim «países ignorantes».

Por outro lado, o trabalhador com conhecimento tem necessidade de trabalhar numa organização, pois só esta poderá transformar o conhecimento especializado em desempenho. A sociedade do conhecimento é uma sociedade de empregados e uma sociedade de organizações. Os trabalhadores vão ser «empregados» que têm «chefes» e, ao mesmo tempo «chefes» que têm «empregados». E em que os próprios empregados possuem as ferramentas de produção. Assim, o investimento real não será feito em máquinas ou ferramentas, mas no próprio trabalhador que detém o conhecimento. Sem ele, as máquinas são improdutivas. As organizações precisam mais do trabalhador com conhecimento do que ele necessita delas. Por isso, o órgão central e distintivo desta sociedade é a gestão.

Com o aparecimento da sociedade do conhecimento, as velhas comunidades — família, paróquia, etc. — desapareceram, sendo substituídas por uma nova unidade de integração social: a organização. Tendo em conta a mobilidade geográfica e ocupacional característica desta sociedade, as tarefas e desafios sociais multiplicam-se, levando ao aparecimento de organizações exclusivamente direccionadas para o sector social, que criam cidadania.

Todas as acções sociais estão a cargo de organizações que se especializam em um, e apenas um, campo de acção. Por isto a sociedade se torna cada vez mais pluralista, apesar de as teorias sociais e políticas continuarem a assumir que a sociedade depende de um poder central que é o Governo.

Logo que o conhecimento se tornou o recurso económico-chave, a integração de interesses e do pluralismo começaram a cair por terra.

Cada vez mais os interesses não económicos estão a criar um novo pluralismo, levando a que a política dispense mais atenção aos assuntos morais.

Mas a «Idade das Transformações Sociais» ainda não terminou. Se o século XX foi caracterizado pelas transformações sociais, o século XXI terá de ser o século das inovações sociais e políticas.

As necessidades sociais vão aumentar em duas áreas específicas. Primeiro, naquilo que tradicionalmente é chamado de caridade, e, por outro lado, no que diz respeito aos serviços que lutam por mudar a comunidade e as pessoas.

O número de pessoas com necessidades está em constante crescimento e estas aumentam também nos serviços que não dispensam a caridade, mas que fazem a diferença na comunidade e na mudança das pessoas. Este serviços vão ser ainda mais essenciais nas próximas décadas.

O sector dos serviços comunitários tem tudo para ser um dos sectores de crescimento das economias desenvolvidas, onde a necessidade de caridade deverá registar um abrandamento.

O certo é que as agências não lucrativas independentes têm conhecido resultados impressionantes. Criar novas organizações comunitárias autónomas é, assim, um passo decisivo para que o governo comece novamente a mostrar desempenho. Mas o maior contributo destas organizações passa por serem um novo centro de cidadania repleta de significado. Para restaurar a cidadania é necessário um terceiro sector, além do privado e do público. Necessita-se de um sector social autónomo.

A cidadania política já não funciona. Os indivíduos votam, os indivíduos pagam impostos, mas não podem assumir responsabilidades, não podem agir de modo a fazer a diferença. Sem a cidadania, o regime é vazio, seja chamado de «Estado» ou de «Império» só pode ser um poder. E o poder é a única forma que o mantém unido.

Do mesmo modo, a comunidade tem de ser restaurada. A família está a tornar-se cada vez mais importante para a maioria das pessoas.

Mas a família já não faz parte da comunidade e as pessoas necessitam de se sentir integradas numa comunidade baseada no compromisso e na compaixão.

Por essa razão, a organização baseada no conhecimento necessita de ser uma organização baseada na responsabilidade. Mas os indivíduos, especialmente os que detêm conhecimento, necessitam de outra esfera da vida social, das relações pessoais e de contribuição além da organização. Essa só pode ser satisfeita pelo sector social. Aí podem fazer a diferença e podem ser «voluntários».

Na verdade, as organizações não lucrativas tornaram-se os maiores empregadores americanos. A cidadania restaura a responsabilidade cívica e o orgulho cívico que marca a comunidade. Diferentes sociedades e países vão estruturar o sector social de forma bastante distinta. Mas todos os países desenvolvidos necessitam de um sector social autónomo, que forneça os serviços necessários à comunidade, mas que, acima de tudo, possa reparar os laços da comunidade e um sentido de cidadania activa. Na sociedade e regimepós-capitalistas, a comunidade terá de se tornar um compromisso.

Da análise à percepção.

Estávamos em 1712 quando Thomas Newcomen fez funcionar o primeiro motor a vapor. Durante 250 anos o modelo da tecnologia era mecânico, vivia-se a «Era do Vapor». Em 1945, esta era começou a chegar ao fim. Um ano mais tarde, apareceu o primeiro computador e entrou-se numa era em que a informação é o princípio organizador do trabalho. Porém, a informação é o princípio básico dos processos biológicos, não dos mecânicos.

Poucos acontecimentos tiveram tanto impacto na civilização como teve a mudança do princípio básico de organização do trabalho.

Muito se tem dito e escrito sobre o impacto das tecnologias de informação na civilização material, nos bens, nos serviços e nos negócios. Mas os impactos sociais são muito mais importantes. Qualquer mudança impulsiona uma explosão de empreendorismo. E agora quem dita as regras é a informação e a biologia. A fase de empreendorismo que atravessamos será tão importante para as inovações sociais como para qualquer nova tecnologia ou produto.

Com todas as pessoas a poderem receber informação nas suas casas, o controlo da informação por parte do governo deixa de ser possível. Aliás, a informação é agora transnacional. E como não conhece fronteiras, irá originar novas comunidades transnacionais de pessoas que, apesar de não se conhecerem pessoalmente, vivem em comunhão, porque comunicam.

O próprio conceito de cidade vai mudar no século XXI. Em vez de existirem deslocações de pessoas, passa a haver movimento de idéias e informação. Aliás, a informação já vai ao encontro das pessoas. Cada vez mais as pessoas trabalham a partir de casa, ou em pequenos «escritórios-satélites» fora das grandes cidades. A cidade poderá tornar-se num centro de informação, em vez de num centro de trabalho.

A questão do tamanho certo para uma tarefa ou organização será o desafio principal. Para o sistema mecânico, o melhor desempenho é obtido através de um aumento proporcional. Mas nos sistemas biológicos o tamanho é determinado pela função. Na sociedade da informação, a grandeza torna-se uma «função» dependente. Para que a comunicação seja eficaz, terá de existir informação e sentido, e o sentido exige comunhão, que, por sua vez, requer uma comunidade. Por tudo isto, o tamanho ideal será determinado pela capacidade de entrega rápida de informação.

A tecnologia não é natureza, mas humanidade. Não está ligada com ferramentas, mas sim com a forma como as pessoas trabalham, vivem e pensam. Mas porque a tecnologia é uma extensão dos seres humanos, a mudança tecnológica básica consegue expressar a visão do universo e modificá-la.

O computador é de certa forma a derradeira expressão da visão analítica e conceptual do universo mecânico. Mas acaba por nos forçar a transcender este modelo. Em si própria, a informação é analítica e conceptual. Mas também é o princípio organizador de qualquer processo biológico. E o processo biológico não é analítico. A informação é de facto conceptual. Mas o sentido não, esse é percepção.

Por esta razão, a passagem do universo mecânico para o biológico vai eventualmente exigir uma nova síntese filosófica.

Condensado do livro The Essential Drucker, de Peter F. Drucker. by Livraria Nobel. Todos os direitos reservados. Publicado com permissão. Condensado por Filipa Lopes.